As muito feias que me perdoem, mas beleza é fundamental.
É preciso que haja qualquer coisa de flor em tudo isso,
qualquer coisa de dança. .
Não há meio-termo possível. É preciso que tudo isso seja belo. É preciso que, súbito,
tenha-se a impressão de ver uma garça apenas pousada e que um rosto
adquira de vez em quando essa cor só encontrável no terceiro minuto da aurora.
É preciso que tudo isso seja sem ser, mas que se reflita e desabroche
no olhar dos homens. É preciso, é absolutamente preciso, que tudo seja belo e inesperado.
Ah, deixai-me dizer-vos que é preciso que a mulher que ali está seja bela ou tenha pelo menos um rosto que lembre um templo e seja leve como um resto de nuvem; mas que seja uma nuvem
com olhos e nádegas. Nádegas é importantíssimo. Olhos, então, nem se fala, que olhem com certa maldade inocente.
Uma boca fresca (nunca úmida!) é também de extrema pertinência.
É preciso que as extremidades sejam magras; que uns ossos
despontem, sobretudo a rótula ao cruzar das pernas, e as pontas pélvicas.
no enlaçar de uma cintura semovente.
Gravíssimo é, porém, o problema das saboneteiras: uma mulher sem saboneteira
e como um rio sem pontes.
A pele deve ser fresca nas mãos, nos braços, no dorso e na face.
Os olhos, que sejam de preferência grandes e de rotação pelo menos tão lenta quanto a da Terra; e
que se coloquem sempre para lá de um invisível muro de paixão
que é preciso ultrapassar.
Oh, sobretudo, que ela não perca nunca, não importa em que mundo, não importa em que circunstâncias, a sua infinita volubilidade de pássaro; e que acariciada no fundo de si mesma transforme-se em fera sem perder sua graça de ave; e que exale sempre o impossível perfume; e destile sempre o embriagante mel; e cante sempre o inaudível canto da sua combustão
Trechos de Receita de Mulher, Vinícius de Moraes.